A pouco terminei o livro intitulado "Confissões de um Assassino Economico"

Confissões de um Assassino Econômico (em inglês, Confessions of an Economic Hit Man) é uma autobiografia escrita por John Perkins e originalmente publicada em 2004. Conta a história de sua carreira como consultor da empresa Chas. T. Main, cargo para o qual teria sido recrutado por um membro da Agência de Segurança Nacional estadunidense, NSA. Seu trabalho consistia em atuar como um assassino econômico. Assassinos econômicos, de acordo com o autor, são profissionais altamente remunerados cujo trabalho é lesar países ao redor do mundo em golpes de trilhões de dólares.
Enfim, é um livro controverso tem gente que fala que é fantasia, tem gente que fala que é verdade, ou seja, mais um livro no hall da teoria a conspiração, mas de qualqer maneira muito interessante e eva a pensar sobre algumas questões. Posto a seguir o capitulo 34 que fala de uma lenda do Condor e da Águi e Achei interessante por ser parecido com a transição da noite para o dia remontando a época e profecia de Nitiren Daishonin sobre o qdvendo de Joogyo Bossatsu.
No fringir dos ovos o livro é bom, recomendo a leitura =]
CAPÍTULO 34
Equador Revísitado
A Venezuela foi um caso clássico. No entanto, enquanto eu observava os acontecimentos se desdobrarem lá, ocorreu-me que as frentes de batalha ver dadeiramente importantes estavam sendo desenhadas em outro país. Elas eram importantes não porque representassem mais em termos de dólares ou vidas humanas, mas porque envolviam questões que ultrapassavam as metas materialistas que geralmente definem os impérios. Essas frentes de batalha se estendiam além dos exércitos de banqueiros, executivos de empresas e polí¬ticos, mergulhando fundo na alma da civilização moderna. E elas estavam sendo estabelecidas em um país que eu conhecia e amava, um país onde tra¬balhara pela primeira vez como voluntário do Corpo de Paz: o Equador.
Nos anos que se seguiram desde a primeira vez que estive lá, em 1968, esse minúsculo país tinha se tornado uma vítima altamente característica da corporatocracia. Os meus contemporâneos e eu, e os nossos modernos equi¬valentes corporativos, conseguiram levar o país à virtual falência. Empres¬tamos bilhões de dólares para ele, de modo que pudesse contratar as nossasempresas de engenharia e construção para desenvolver projetos que ajuda¬riam às famílias mais ricas. Como resultado, naquelas três décadas, o nível de pobreza oficial cresceu de 50 para 70 por cento, o subemprego ou o de¬semprego aumentaram de 15 para 70 por cento, a dívida pública aumentou de 240 milhões de dólares para 16 bilhões, e a participação nos recursos na¬cionais alocados para os cidadãos mais pobres declinou de 20 por cento pa¬ra 6 por cento. Hoje, o Equador deve dedicar praticamente 50 por cento do seu orçamento nacional simplesmente para pagar as suas dívidas — em vez de ajudar os milhões de seus cidadãos que estão oficialmente classificados como perigosamente empobrecidos.1
A situação nu l i|ii.uloi demonstra claramente que isso não c o ivsull.i-do de unia conspiração; c1 uni processo que ocorreu duranlc lanio a adini nistração democrática quanto a republicana, um processo que envolveu Io dos os principais bancos multinacionais, muitas corporações e missões de ajuda externa de uma variedade de países. Os Estados Unidos desempenha ram o papel principal, mas não estivemos agindo sozinhos.
Durante aquelas três décadas, milhares de homens e mulheres parliei param do processo que colocou o Equador na posição delicada em que ele se encontrava no início do milénio. Alguns deles, como eu, tinham cons ciência do que estavam fazendo, mas a imensa maioria meramente desem penhara as tarefas que aprenderam nas faculdades de administração, enge nharia e direito, ou seguiram a liderança de chefes com o meu perfil, que demonstravam o sistema pelo próprio exemplo de ganância e por meio de recompensas e punições calculadas para perpetuá-lo. Esses participai! l es viam as partes que desempenhavam como benignas, na pior das hipóteses; na maioria das visões otimistas, eles estavam ajudando um país pobre.
Embora inconscientes, enganadas e — em muitos casos — iludidas, es sãs pessoas não eram integrantes de uma conspiração clandestina; em ver disso, eram o produto de um sistema que promove a forma mais sutil e eii caz de imperialismo que o mundo jamais conheceu. Ninguém precisava saii para procurar homens e mulheres que pudessem ser subornados e ameaça dos — eles já tinham sido recrutados por empresas, bancos e agências dn governo. Os subornos consistiam de salários, bónus e pensões, além de pó líticas de seguros; as ameaças baseavam-se em costumes sociais, pressão dos pares e questões veladas sobre o futuro da educação dos filhos.
O sistema fora espetacularmente bem-sucedido. Na época em que co¬meçou o novo milénio, o Equador estava completamente encurralado. Ele estava nas nossas mãos, assim como um chefão da Máfia tem nas suas o ho¬mem cujo casamento da filha e o pequeno negócio foram financiados e de¬pois refinanciados. Assim como qualquer bom mafioso, nós não tínhamos pressa. Podíamos nos dar o luxo de ser pacientes, sabendo que por baixo das florestas tropicais do Equador havia um mar de petróleo, sabendo que o dia certo haveria de chegar.
Aquele dia já tinha chegado quando, no inicio de 2003, saí de Quito com a minha caminhonete de luxo pela estrada sinuosa rumo à cidade na selva da Shell. Chávez se restabelecera na Venezuela. Ele havia desafiado George W. Bush e havia vencido. Saddam resistia na sua posição e se preparava para ser invadido. Os suprimentos de petróleo haviam se esvaziado a um nível mais baixo desde as últimas três décadas e as perspectivas de con¬seguir mais de nossas fontes primárias pareciam desanimadoras — e portan¬to, o mesmo acontecia com a saúde das folhas de balanço das corporatocra-cias. Precisávamos de um ás na mão. Chegara o momento de cobrar a nossa dívida com os equatorianos.
Ao passar pela gigantesca represa no rio Pastaza, compreendi que ali no Equador a batalha não era simplesmente a luta clássica entre os ricos do mundo contra os mais pobres, entre os exploradores e os explorados. As frentes dessa batalha acabariam por decidir quem éramos nós como civili¬zação. Estávamos dispostos a forçar esse minúsculo país a abrir a sua parte da floresta amazõnica para as nossas companhias petrolíferas. A devastação que resultaria disso seria incomensurável.
Se insistíssemos em cobrar a dívida, as repercussões iriam além da nos¬sa capacidade de quantificá-la. Não se tratava simplesmente da destruição de culturas indígenas, vidas humanas e centenas de milhares de espécies de animais, répteis, peixes, insetos e plantas, alguns dos quais poderiam con¬ter a cura para um sem-número de doenças. Não se tratava apenas de que as florestas tropicais absorvem os gases do efeito estufa causado pelas nossas indústrias, liberam o oxigénio necessário à nossa vida e dão origem às nu¬vens que em última análise criam uma grande porcentagem da água potável do mundo. Aquilo ia além de todos os argumentos convencionais feitos por ecologistas para salvar lugares dessa natureza, penetrando fundo nas nossas almas.
Se insistíssemos nessa estratégia, estaríamos continuando com um mo¬delo imperialista que começara muito antes do Império Romano. Nós rejei¬tamos a escravidão, mas o nosso império mundial escraviza mais pessoas do que os romanos e todas as outras potências coloniais antes de nós. Eu ima¬ginava como poderíamos executar uma política imediatista dessa no Equa¬dor e ainda viver com a nossa consciência coletiva.
Olhando pela janela da caminhonete para as encostas desmaiadas dos Andes, uma região que durante os meus dias de Corpo de Paz fora exube¬rante de plantas tropicais, de repente me surpreendi com outra conclusão. Ocorreu-me naquele momento que aquela visão do Equador como uma frente de batalha importante era algo puramente pessoal, que na verdade to¬do país onde eu trabalhara, todo país com recursos cobiçados pelo império, era igualmente importante. Eu tinha a minha própria ligação com esse aqui, que remontava desde aqueles dias do final da década de 1960, quando per¬di a minha inocência nesse lugar. No entanto, era subjetivo, uma predispo¬sição pessoal.
Embora as florestas equatorianas fossem preciosas, assim como os po¬vos indígenas e todas as outras formas de vida que as habitavam, elas não eram mais preciosas do que os desertos do Ira e os ancestrais beduínos de Yamin. Não eram mais preciosas do que as montanhas de Java, os mares da costa das Filipinas, as estepes da Ásia, as savanas da África, as florestas da América do Norte, as calotas de gelo do Ártico nem do que centenas de ou¬tros lugares ameaçados. Cada um deles representa uma batalha para mim e cada um deles nos força a ir buscar as profundezas da nossa alma individual
e coletiva.
Recordei-me de uma estatística que resume tudo isso de uma vez: a re¬lação entre o rendimento de um quinto da população mundial dos países mais ricos e um quinto dos países mais pobres variou de 30 para l em 1960 para 74 para l em 1995.2 E o Banco Mundial, a Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (USA1D), o FMI e o restante dos bancos, corporações e governos envolvidos na "ajuda" internacional continuam a nos dizer que estão fazendo o seu trabalho, que o progresso tem avançado. Portanto, aqui estava eu de novo no Equador, no país que era apenas um dentre muitos nas frentes de batalha mas que ocupa um lugar especial no meu coração. Estávamos em 2003, 35 anos depois que eu chegara ali pe¬la primeira vez como integrante de uma organização americana que carrega a palavra paz no seu nome. Dessa vez, eu viera com a finalidade de tentar , impedir uma guerra que por três décadas ajudara a provocar.
Parecia que os acontecimentos no Afeganistão, no Iraque t na Venezue-: Ia podiam ser suficientes para nos impedir de outro conflito; ainda assim, no Equador a situação era muito diferente. Essa guerra não requeria as for¬ças armadas americanas, pois seria travada por poucos milhares de guerrei¬ros indígenas equipados apenas com lanças, machadinhas e fuzis de um úni¬co tiro, de carregar pela boca. Eles enfrentariam o moderno exército equatoriano, um punhado de conselheiros das Forças Especiais americanas e mercenários treinados pêlos chacais contratados pelas companhias petro¬líferas. Essa seria uma guerra, como o conflito de 1995 entre Equador e Pe¬ru, da qual a maioria das pessoas nos Estados Unidos nunca ouviu falar, e recentes acontecimentos haviam aumentado sucessivamente a probabilida¬de dessa guerra. 1
Em dezembro de 2002, os representantes de uma companhia petrolí¬fera acusaram uma comunidade indígena de tomar como reféns uma equi¬pe de seus trabalhadores; eles sugeriam que os guerreiros envolvidos eram membros de um grupo terrorista, com implicações de possíveis liga¬ções com a al-Qaeda. Era um assunto especialmente complicado, porque a companhia de petróleo não havia recebido permissão do governo para fazer perfurações. No entanto, a companhia alegava que os seus trabalha¬dores tinham o direito de fazer estudos preliminares, pesquisas que não envolviam perfurações — uma alegação veementemente questionada pê¬los grupos indígenas alguns dias depois, quando apresentaram o seu lado da história.
Os trabalhadores da companhia petrolífera, insistiam os representan¬tes tribais, haviam ingressado em terras em que não tinham permissão de entrar; os guerreiros não carregavam armas, nem haviam ameaçado os tra¬balhadores com violência de nenhuma natureza. Na verdade, eles haviam escoltado os trabalhadores para a aldeia, onde lhes ofereceram alimento e chicha, a cerveja local. Enquanto os visitantes faziam sua refeição, os guer¬reiros persuadiram os guias dos trabalhadores a ir embora. No entanto, afir¬mava a tribo, os trabalhadores em nenhum momento foram mantidos ali contra a vontade; eles eram livres para ir aonde quisessem.3
Dirigindo pela estrada, lembrei-me de que os shuars tinham me dito em 1990 quando, depois de vender a IPS, eu retornara ali para me oferecer para ajudá-los a salvar as suas florestas. "O mundo é aquilo que você sonha", eles tinham dito, e então observaram que nós do Norte tínhamos sonhado com indústrias enormes, uma porção de carros e gigantescos arranha-céus. Agora descobríamos que a nossa visão fora na verdade um pesadelo que aca¬baria nos destruindo.
"Mudem esse sonho", os shuars me advertiram. E ali estava, mais de uma década depois, e a despeito do trabalho de muitas pessoas e de organi¬zações sem fins lucrativos, incluindo aquelas com as quais eu tinha traba¬lhado, o pesadelo adquirira novas e horríveis proporções.
Quando a minha caminhonete finalmente entrou na cidade na selva da Shell, eu tive de abrir caminho para chegar à reunião. Os homens e mulhe¬res que participavam representavam muitas tribos: Kichwa, Shuar, Achuar, Shiwiar e Zaparo. Alguns tinham caminhado durante dias através da selva, outros tinham vindo em pequenos aviões, mantidos por organizações sem fins lucrativos. Alguns usavam os seus tradicionais saiotes, traziam as lacespintadas e cocares de penas, embora a maioria tentasse imitar as pessoas da cidade, usando calças, camisetas e sapatos.
Os representantes da comunidade acusada de tomar reféns falaram pri¬meiro. Eles nos contaram que pouco depois que os trabalhadores retorna¬ram para a companhia petrolífera, mais de uma centena de soldados equa¬torianos chegaram à sua pequena comunidade. Eles nos lembraram que estava começando uma estação especial na floresta, a época da frutificação da chonta. Uma árvore sagrada para as culturas indígenas, ela dá frutos uma vez por ano e isso é o sinal do começo da estação de acasalamento para mui¬tos dos pássaros da região, incluindo espécies raras e ameaçadas. Quando se reúnem em bandos nessa época, os pássaros são extremamente vulneráveis. As tribos mantêm políticas rígidas que proíbem a caça desses pássaros du¬rante a estação da chonta.
"A chegada dos soldados não poderia ter acontecido em momento pior", explicou uma mulher. Senti a dor daquela mulher e dos seus compa¬nheiros enquanto eles contavam as suas trágicas histórias sobre como os sol¬dados ignoravam as proibições. Eles atiravam nos pássaros por esporte e pa¬ra se alimentar. Além disso, eles passavam sobre as plantações das famílias, bananeiras e campos de mandioca, geralmente destruindo de modo irrepa¬rável o solo desprotegido. Usavam explosivos para pescar nos rios, e co¬miam animais de estimação das famílias. Eles confiscavam as armas de fogo e até as zarabatanas dos caçadores locais, cavavam latrinas inadequadas, po¬luíam os rios com óleo combustível e solventes, molestavam sexualmente as mulheres e não se incomodavam em dar uma destinação correta ao lixo, o que atraía insetos e vermes.
"Nós tínhamos duas alternativas", disse um homem. "Podíamos lu¬tar ou engolir o nosso orgulho e fazer o melhor possível para reparar os danos. Decidimos que não era a hora de lutar." Ele contou como tentaram contrabalançar os abusos dos militares, incentivando o seu povo a ficar sem comer. Ele chamou àquilo de jejum mas na verdade parecia aproxi¬mar-se da inanição voluntária. Os idosos e as crianças ficaram desnutridos e adoeceram.
Eles falaram sobre as ameaças e subornos. "Meu filho", disse uma mu¬lher "fala inglês tanto quanto espanhol e vários dialetos indígenas. Ele tra¬balhava como guia e tradutor para uma empresa de ecoturismo. Eles lhe pa¬gavam um salário decente. A companhia petrolífera ofereceu-lhe dez vezes mais. O que ele podia fazer? Agora ele escreve cartas denunciando a antiga empresa e todos os outros que vêm nos ajudar, e nessas carias ele chama a •. companhias petrolíferas de nossas amigas." Ela sacudiu o corpo, como um cachorro depois de um banho para se livrar da água. "Ele não c mais uni cK nós. Meu filho..."
Um homem mais velho, usando o tradicional adereço de cabeça de um xamã, se levantou. "Vocês sabem sobre aqueles três que escolhemos para nos representar contra as companhias de petróleo, que morreram naquele desas¬tre de avião? Bem, não vou ficar aqui para lhes dizer o mesmo que muitos dizem: que as companhias petrolíferas provocaram o desastre. Mas posso lhes dizer que essas três mortes deixaram uma grande lacuna na nossa or¬ganização. As companhias petrolíferas não perderam tempo e preencheram a lacuna com gente delas."
Outro homem apareceu com um contrato e começou a lê-lo. Em troca de 300 mil dólares, era cedido um imenso território para uma empresa ma-deireira. Estava assinado por três funcionários tribais.
"Estas não são as assinaturas verdadeiras deles", afirmou ele. "Eu sei muito bem; um deles é o meu filho. Este é um outro tipo de assassínio. De¬sacreditar os nossos líderes."
Parecia irónico e estranhamente apropriado que isso estivesse aconte¬cendo numa região do Equador onde as companhias petrolíferas ainda não tinham permissão para perfurar petróleo. Elas tinham feito perfurações em muitas áreas ao redor dessa, e os povos indígenas presenciaram os resulta¬dos, tinham testemunhado a destruição dos seus vizinhos. Enquanto eu ou¬via, me perguntei como os cidadãos do meu país reagiriam se reuniões co¬mo aquela fossem transmitidas pela CNN ou no noticiário da noite.
As reuniões eram fascinantes e as revelações profundamente perturba¬doras. Mas algo mais também acontecia, fora do local formal daquelas ses¬sões. Durante os intervalos, no almoço e à noite, quando conversei com as pessoas em particular, muitas vezes me perguntavam por que os Estados Unidos estavam ameaçando o Iraque. A guerra iminente era discutida nas primeiras páginas dos jornais equatorianos que chegavam até essa cidadezi-nha na selva, e a cobertura era muito diferente da que era feita nos Estados Unidos. Ela incluía referências à propriedade pela família Bush das compa¬nhias petrolíferas e da United Fruit, e do papel do vice-presidente Cheney como CEO da Halliburton.
Esses jornais eram lidos a homens e mulheres que nunca tinham fre-qâentado uma escola. Todo mundo parecia ter interesse pelo assunto. Ali es-lava eu, na floresta Amazônica, entre pessoas iletradas que muitos nos lis¬tados Unidos consideram "atrasadas", até mesmo "selvagens", e ainda assim as questões que discutiam e as perguntas que faziam tinham tudo :\ ver tom o cerne do império mundial.
Depois de partir de Shell, passando no caminho pela represa liidiclc trica e o alto dos Andes, continuei pensando sobre a diferença entre o qur eu tinha visto e ouvido durante essa viagem ao Equador e aquilo com o i|ii< tinha me acostumado nos Estados Unidos. Parecia que as tribos amazoniras tinham muita coisa a nos ensinar, que apesar de todo o nosso estudo c nos sãs muitas horas lendo revistas e assistindo às notícias pela televisão, nirt* ciamos da consciência que eles de alguma forma desenvolveram. Essa linha de raciocínio me fez pensar na "Profecia do Condor e da Águia", que ouvi rã muitas vezes em toda a América Latina e de profecias semelhantes qut encontrara ao redor do mundo.
Praticamente todas as culturas conheciam profecias de que no final da década de 1990 entraríamos num período de excepcional transivão Nos mosteiros do Himalaia, em retiros cerimoniais na Indonésia c resei vás indígenas na América do Norte, das profundezas da Amazónia aos picos dos Andes e nas antigas cidades maias da América Central, eu ouvi lalai que esse momento que atravessamos é especial para a história da humani dade, e que cada um de nós nasceu nessa época porque temos uma missão a cumprir.
Os títulos e as palavras das profecias diferem ligeiramente. Elas variam em torno da Nova Era, do Terceiro Milénio, da Era de Aquário, do Início do Quinto Sol, ou do fim de antigos calendários e do começo de novos. Con tudo, apesar da terminologia variada, elas têm uma porção de coisas em co mum, e a Profecia do Condor e da Águia é bem característica. Segundo ehi. nas brumas do início dos tempos, as sociedades humanas se dividiram e to maram dois caminhos diferentes: o do condor (representando o coração, a intuição e o misticismo) e o da águia (representando o cérebro, a razão e o materialismo). Na década de 1490, reza a profecia, os dois caminhos convergiriam e a águia levaria o condor à beira da extinção. Então, 500 anos de pois, na década de 1990, uma nova época começaria, em que o condor e a águia teriam a oportunidade de se reencontrar e voar juntos no mesmo céu, pelo mesmo caminho. Se o condor e a águia aproveitarem a oportunidade, as consequências serão as mais excepcionais, diferentes de tudo o que foi conhecido até então.
A Profecia do Condor c da Águia pode ser considerada em muitos ni veis — a interpretação comum é que ela prevê a comunhão tios conhccimcn tos indígenas com as tecnologias da ciência, o equilíbrio entre yin e yang e a ligação entre as culturas do norte e do sul. No entanto, mais profunda ainda é a mensagem que ela transmite sobre a consciência; ela diz que chegamos a uma época em que podemos nos beneficiar de inúmeras maneiras de ver a nós mesmos e ao mundo, e que podemos usar esse conhecimento como um trampolim para níveis superiores de consciência. Como seres humanos, po¬demos realmente acordar e evoluir para uma espécie mais consciente.
O povo do condor da Amazónia faz parecer muito óbvio que se esta¬mos para fazer perguntas sobre a natureza do que é o ser humano neste no¬vo milénio, e sobre o nosso compromisso em avaliar as nossas intenções pa¬ra as próximas várias décadas, então precisamos abrir os olhos e ver as consequências dos nossos atos — as ações da águia — em lugares como o Iraque e o Equador. Devemos nos chacoalhar para acordar. Nós, que vive¬mos no país mais poderoso que a história já viu, devemos parar de nos preo¬cupar tanto com o resultado das novelas açucaradas, jogos de futebol, o ba¬lanço do trimestre e com os índices diários da Bolsa de Valores, e em lugar disso devemos reavaliar quem somos e que futuro queremos para os nossos filhos. A alternativa de parar e fazer essas perguntas importantes é simples¬mente perigosa demais.