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domingo, 4 de novembro de 2007

Reflexões sobre a morte



Estou lendo um livro muito interessante intitulado "as intermitencias da morte" de José Saramago, trata-se de um conto ocorrido em um país onde a morte parou de ocorrer. Uma visão geral pode ser obtida em: http://pt.wikipedia.org/wiki/As_Intermit%C3%AAncias_da_Morte

Enfim, reproduzo abaixo um dos capitulos que mais me chamou a atenção pois não se trata em absoluto de ficção. É o drama de uma familia que deve decidir se eles levam os parentes (um avo e um neto que) para o outro lado da fronteira onde ele poderiam morrer ou se os deixaria eternamente na agonia do pre-morte mas sem poder morrer.

Digo que isso não é fantasia pois a medicina atualmente está fazendo exatamentente isso, evitar a todo custo que a pessoa morra sem medir suas consequencias fazendo algo semelhante ao que acontece no texto. Bom, leiam e reflitam com essa intenção em mente.

Da primeira reunião da comissão interdisciplinar tudo se pode dizer menos que tenha corrido bem. A culpa, se o pesado termo tem aqui cabimento, teve-a o dramático memorando levado ao governo pêlos lares do feliz ocaso, em especial aquela cominató-ria frase que o rematava, Antes a morte, senhor primeiro-ministro, antes a morte que tal sorte. Quando os filósofos, divididos, como sempre, em pessimistas e optimistas, uns carrancudos, outros riso¬nhos, se dispunham a recomeçar pela milésima vez a cediça dispu¬ta do copo de que não se sabe se está meio cheio ou meio vazio, a qual disputa, transferida para a questão que ali os chamara, se reduziria no final, com toda a probabilidade, a um mero inventário das vantagens ou desvantagens de estar morto ou de viver para sempre, os delegados das religiões apresentaram-se formando uma frente unida comum com a qual aspiravam a estabelecer o debate no único terreno dialéctico que lhes interessava, isto é, a aceitação explícita de que a morte era absolutamente fundamental para a realização do reino de deus e que, portanto, qualquer discus¬são sobre um futuro sem morte seria não só blasfema como absur¬da, porquanto teria de pressupor, inevitavelmente, um deus ausen¬te, para não dizer simplesmente desaparecido. Não se tratava de uma atitude nova, o próprio cardeal já havia apontado o dedo ao busílis que significaria esta versão teológica da quadratura do cír¬culo quando, na sua conversação telefónica com o primeiro- ministro, admitiu, ainda que por palavras muito menos claras, que se se acabasse a morte não poderia haver ressurreição, e que se não houvesse ressurreição, então não teria sentido haver igreja. Ora, sendo esta, pública e notoriamente, o único instrumento de lavou¬ra de que deus parecia dispor na terra para lavrar os caminhos que deveriam conduzir ao seu reino, a conclusão óbvia e irrebatível é de que toda a história santa termina inevitavelmente num beco sem saída. Este ácido argumento saiu da boca do mais velho dos filó¬sofos pessimistas, que não ficou por aqui e acrescentou acto con¬tínuo, As religiões, todas elas, por mais voltas que lhes dermos, não têm outra justificação para existir que não seja a morte, preci¬sam dela como do pão para a boca. Os delegados das religiões não se deram ao incómodo de protestar. Pelo contrário, um deles, con¬ceituado integrante do sector católico, disse, Tem razão, senhor filósofo, é para isso mesmo que nós existimos, para que as pessoas levem toda a vida com o medo pendurado ao pescoço e, chegada a sua hora, acolham a morte como uma libertação, O paraíso, Paraí¬so ou inferno, ou cousa nenhuma, o que se passe depois da morte importa-nos muito menos que o que geralmente se crê, a religião, senhor filósofo, é um assunto da terra, não tem nada que ver com o céu, Não foi o que nos habituaram a ouvir, Algo teríamos que dizer para tornar atractiva a mercadoria, Isso quer dizer que em realidade não acreditam na vida eterna, Fazemos de conta. Durante um minuto ninguém falou. O mais velho dos pessimistas deixou que um vago e suave sorriso se lhe espalhasse na cara e mostrou o ar de quem tinha acabado de ver coroada de êxito uma difícil experiência de laboratório. Sendo assim, interveio um filó¬sofo da ala optimista, porquê vos assusta tanto que a morte tenha acabado, Não sabemos se acabou, sabemos apenas que deixou de matar, não é o mesmo, De acordo, mas, uma vez que essa dúvida não está resolvida, mantenho a pergunta, Porque se os seres huma¬nos não morressem tudo passaria a ser permitido, E isso seria mau, perguntou o filósofo velho, Tanto como não permitir nada. Houve um novo silêncio. Aos oito homens sentados ao redor da mesa tinha sido encomendado que reflectissem sobre as consequências de um futuro sem morte e que construíssem a partir dos dados do presente uma previsão plausível das novas questões com que a sociedade iria ter de enfrentar-se, além, escusado seria dizer, do inevitável agravamento das questões velhas. Melhor então seria nào fazer nada, disse um dos filósofos optimistas, os problemas do l uturo, o futuro que os resolva, O pior é que o futuro é jáhoje, disse um dos pessimistas, temos aqui, entre outros, os memorandos ela-iorados pêlos chamados lares do feliz ocaso, pêlos hospitais, )elas agências funerárias, pelas companhias de seguros, e, salvo o caso destas, que sempre hão-de encontrar maneira de tirar provei¬to de qualquer situação, há que reconhecer que as perspectivas não se limitam a ser sombrias, são catastróficas, terríveis, excedem em jerigos tudo o que a mais delirante imaginação pudesse conceber, Sem pretender ser irónico, o que nas actuais circunstâncias seria de péssimo gosto, observou um integrante não menos conceitua¬do do sector protestante, parece-me que esta comissão já nasceu morta, Os lares do feliz ocaso têm razão, antes a morte que tal sorte, disse o porta-voz dos católicos, Que pensam então fazer, perguntou o pessimista mais idoso, além de propor a extinção ime¬diata da comissão, como parece ser o vosso desejo, Por nossa parte, igreja católica, apostólica e romana, organizaremos uma campanha nacional de orações para rogar a deus que providencie o regresso da morte o mais rapidamente possível a fim de poupar a pobre humanidade aos piores horrores, Deus tem autoridade sobre a morte, perguntou um dos optimistas, São as duas caras da mesma moeda, de um lado o rei, do outro a coroa, Sendo assim, talvez tenha sido por ordem de deus que a morte se retirou, A seu tempo conheceremos os motivos desta provação, entretanto vamos pôr os rosários a trabalhar, Nós faremos o mesmo, refiro-me às orações, claro está, não aos rosários, sorriu o protestante, E também vamos fazer sair à rua em todo o país procissões a pedir a
morte, da mesma maneira que já as fazíamos ad petendam plu-viam, para pedir chuva, traduziu o católico, A tanto não chegare¬mos nós, essas procissões nunca fizeram parte das manias que cul¬tivamos, tornou a sorrir o protestante. E nós, perguntou um dos filósofos optimistas em um tom que parecia anunciar o seu próxi¬mo ingresso nas fileiras contrárias, que vamos fazer a partir de agora, quando parece que todas as portas se fecharam, Para come¬çar, levantar a sessão, respondeu o mais velho, E depois, Con¬tinuar a filosofar, já que nascemos para isso, e ainda que seja sobre o vazio, Para quê, Para quê, não sei, Então porquê, Porque a filo¬sofia precisa tanto da morte como as religiões, se filosofamos é por saber que morreremos, monsieur de montaigne já tinha dito que filosofar é aprender a morrer.
Mesmo não sendo filósofos, ao menos no sentido mais comum do termo, alguns haviam conseguido aprender o caminho. Parado¬xalmente, não tanto a aprender a morrer eles próprios, porque ain¬da não lhes teria chegado o tempo, mas a enganar a morte de ou¬tros, ajudando-a. O expediente utilizado, como não tardará a ver-se, foi uma nova manifestação da inesgotável capacidade inventiva da espécie humana. Numa aldeia qualquer, a poucos quilómetros da fronteira com um dos países limítrofes, havia uma família de cam¬poneses pobres que tinha, por mal dos seus pecados, não um parente, mas dois, em estado de vida suspensa ou, como eles pre¬feriam dizer, de morte parada. Um deles era um avô daqueles à antiga usança, um rijo patriarca que a doença havia reduzido a um mísero farrapo, ainda que não lhe tivesse feito perder por comple¬to o uso da fala. O outro era uma criança de poucos meses a quem não tinham tido tempo de ensinar nem a palavra vida nem a pala¬vra morte e a quem a morte real recusava dar-se a conhecer. Não morriam, não estavam vivos, o médico rural que os visitava uma vez por semana dizia que já nada podia fazer por eles nem contra eles, nem sequer injectar-lhes, a um e a outro, uma boa droga letal, daquelas que não há muito tempo teriam sido a solução radical m qualquer problema. Quando muito, talvez pudesse empurrá-s um passo na direcção aonde se supunha que a morte se encon-Htria, mas seria em vão, inútil, porque nesse preciso instante, inal-Ntucável como antes, ela daria um passo atrás e guardaria a llslâiicia. A família foi pedir ajuda ao padre, que ouviu, levantou »s «lhos ao céu e não teve outra palavra para responder senão que cxlos estamos na mão de deus e que a misericórdia divina é infmi-n. Pois sim, infinita será, mas não o suficiente para ajudar o nosso pai e avô a morrer em paz nem para salvar um pobre inocentinho une nenhum mal fez ao mundo. Nisto estávamos, nem para a fren¬te, nem para trás, sem remédio nem esperança dele, quando o velho falou, Que se chegue aqui alguém, disse, Quer água, perguntou uma das filhas, Não quero água, quero morrer, Bem sabe que o médico diz que não é possível, pai, lembre-se de que a morte acabou, O médico não entende nada, desde que o mundo começou a ser mundo sempre houve uma hora e um lugar para morrer, Agora não, Agora sim, Sossegue, pai, que lhe sobe a febre, Não tenho febre, e mesmo que a tivesse daria 0 mesmo, ouve-me com atenção, Estou a ouvir, Aproxima-te mais, antes que se me quebre a voz, Diga. O velho sussurrou algumas palavras ao ouvi¬do da filha. Ela abanava a cabeça, mas ele insistia e insistia. Isso não vai resolver nada, pai, balbuciou ela estupefacta, pálida de espanto, Resolverá, E se não resolver, Não perderemos nada por experimentar, E se não resolver, É simples, trazem-me outra vez para casa, E o menino, O menino vai também, se eu lá ficar, ficará comigo. A filha tentou pensar, lia-se-lhe na cara a confusão, e finalmente perguntou, E por que não os trazemos e enterramos aqui, Imagina o que seria, dois mortos em casa numa terra onde ninguém, por mais que faça, consegue morrer, como o explicarias tu, além disso, tenho as minhas dúvidas de que a morte, tal como estão as cousas, nos deixasse regressar, É uma loucura, pai, Talvez seja, mas não vejo outro meio para sair desta situação, Queremo-lo vivo, e não morto, Mas não no estado em que me vês aqui, um
vivo que está morto, um morto que parece vivo, Se é assim que quer, cumpriremos a sua vontade, Dá-me um beijo. A filha beijou-o na testa e saiu a chorar. Dali, lavada em lágrimas, foi anunciar ao resto da família que o pai havia determinado que o levassem nessa mesma noite ao outro lado da fronteira, lá onde, segundo a sua ideia, a morte, ainda em vigor nesse país, não teria mais remédio que aceitá-lo. A notícia foi recebida com um sentimento complexo de orgulho e resignação, orgulho porque não é cousa de todos os dias ver um ancião oferecer-se assim, por seu próprio pé, à morte que lhe foge, resignação porque perdido por um, perdido por cem, que se lhe há-de fazer, contra o que tem de ser toda a força sobra. Como está escrito que não se pode ter tudo na vida, o corajoso velho deixará em seu lugar nada mais que uma família pobre e honesta que certamente não se esquecerá de lhe honrar a memória. A famí¬lia não era só esta filha que saiu a chorar e a criança que não tinha feito mal nenhum ao mundo, era também uma outra filha e o mari¬do respectivo, pais de três meninos felizmente de boa saúde, mais uma tia solteira a quem já se lhe passou há muito a idade de casar. O outro genro, marido da filha que saiu a chorar, está a viver num país distante, emigrou para ganhar a vida e amanhã saberá que per¬deu de uma só vez o único filho que tinha e o sogro a quem estima¬va. É assim a vida, vai dando com uma mão até que chega o dia em que tira tudo com a outra. Que importam pouco a este relato os parentescos de uns tantos camponeses que o mais provável é não voltarem a aparecer nele, melhor que ninguém o sabemos, mas pareceu-nos que não estaria bem, mesmo de um estrito ponto de vista técnico-narrativo, despachar em duas rápidas linhas precisa¬mente aquelas pessoas que irão ser protagonistas de um dos mais dramáticos lances ocorridos nesta, embora certa, inverídica histó¬ria sobre as intermitências damorte. Aí ficam, pois. Faltou-nos ape¬nas dizer que a tia solteira ainda manifestou uma dúvida, Que dirá a vizinhança, perguntou, quando der por que já não estão aqui aque¬les que, sem morrer, à morte estavam. Em geral a tia solteira não 'fala de uma maneira tão preciosa, tão rebuscada, mas se o fez agora foi para não rebentar em lágrimas, que assim sucederia se tivesse pronunciado o nome do menino que não tinha feito mal nenhum ao mundo e as palavras meu irmão. Respondeu-lhe o pai dos outros três meninos, Dizemos simplesmente o que se passou e esperamos as consequências, pela certa seremos acusados de fazer enterros clandestinos, fora do cemitério e sem conhecimento das autorida¬des, e ainda por cima noutro país, Oxalá não comecem nenhuma guerra por causa disto, disse a tia.
Era quase meia-noite quando saíram a caminho da fronteira. Como se suspeitasse de que algo de estranho estaria a tramar-se, a aldeia havia tardado mais do que o costume a recolher aos lençóis. Por fim, o silêncio tomou conta das ruas e as luzes das casas foram-. se apagando uma a uma. A mula foi atrelada à carroça, depois, com Imuito esforço, apesar do pouco que pesava, o genro e as duas filhas í fizeram descer o avô, tranquilizaram-no quando ele, em voz sumi¬da, perguntou se levavam a pá e a enxada, Levamos, sim, esteja descansado, e logo a mãe da criança subiu, tomou-a ao colo, disse Adeus meu filho que não te torno a ver, e isto não era verdade, por¬que ela também iria na carroça com a irmã e o cunhado, posto que três não seriam de mais para a tarefa. A tia solteira não quis despe¬dir-se dos viajantes que não regressariam e fechou-se no quarto com os sobrinhos. Como os aros metálicos das rodas da carroça causariam estrépito no empedrado irregular da calçada, com grave risco de fazerem aparecer à janela os moradores curiosos de saber aonde iriam os vizinhos àquela hora, deram um rodeio por cami¬nhos de terra até que chegaram finalmente à estrada, fora da povoação. Não estavam muito longe da fronteira, mas o pior era que a estrada não os levaria lá, em certa altura teriam de a deixar e continuar por atalhos onde a carroça mal caberia, sem falar que o último troço tinha de ser feito a pé, por assim dizer a corta-mato, carregando com o avô sabe deus como. Felizmente o genro conhe¬ce bem aquelas paragens porque, além de as ter calcorreado como
caçador, também, uma vez por outra, nelas havia exercido de con¬trabandista amador. Tardaram quase duas horas a chegar ao ponto onde teriam de deixar a carroça, e foi aí que o genro teve a ideia de levarem o avô em cima da mula, fiado na firmeza dos jarretes do animal. Desatrelaram a besta, aliviaram-na dos arreios supérfluos, e, com muito trabalho, trataram de içar o velho. As duas mulheres choravam Ai o meu querido pai, Ai o meu querido pai, e com as lágrimas ia-se-lhes a pouca força que ainda lhes restava. O pobre homem estava meio inconsciente, como se fosse já atravessando o primeiro umbral da morte. Não conseguimos, exclamou com desespero o genro, mas de súbito lembrou-se de que a solução seria montar primeiro ele próprio e puxá-lo depois para a cruz da mula, à sua frente, Levo-o abraçado, não há outra maneira, vocês ajudem daí. A mãe do menino foi à carroça ajeitar a pequena manta que o cobria, não fosse o pobrezinho colher frio, e voltou para aju¬dar a irmã, À uma, às duas, às três, disseram, mas foi como se nada, agora o corpo pesava que parecia chumbo, não puderam fazer mais que soerguê-lo do chão. Então deu-se uma cousa nunca vista, uma espécie de milagre, um prodígio, uma maravilha. Como se por um instante a lei da gravidade se tivesse suspendido ou passa¬do a exercer-se ao contrário, de baixo para cima, o avô escapou-se suavemente das mãos das filhas e, por si mesmo, levitando, subiu para os braços estendidos do genro. O céu, que desde o princípio da noite havia estado coberto de pesadas nuvens que ameaçavam chuva, abriu-se e deixou aparecer a lua. Já podemos seguir, disse o genro, falando para a mulher, tu conduzes a mula. A mãe do menino abriu um pouco a manta para ver como estava o filho. As pálpebras, cerradas, eram como duas pequenas manchas pálidas, o rosto um desenho confuso. Então ela soltou um grito que varreu todo o espaço ao redor e fez estremecer nas suas covas os bichos do mato, Não, não serei eu quem leve o meu filho ao outro lado, não o trouxe à vida para entregá-lo à morte por minhas próprias mãos, levem o pai, eu fico aqui. A irmã veio para ela e perguntou-jlhe, Preferes assistir, um ano atrás de outro, à sua agonia, Tens três ïlhos com saúde, falas de farta, O teu filho é como se fosse meu,
ISe é assim, leva-o tu, eu não posso, E eu não devo, seria matá-lo, al é a diferença, Não é o mesmo levar à morte e matar, pelo menos neste caso, tu és a mãe desse menino, não eu, Serias capaz de levar um dos teus filhos, ou todos eles, Penso que sim, mas não o poderei jurar, Então a razão tenho-a eu, Se é assim que queres, espera-nos, nós vamos levar o pai. A irmã afastou-se, agarrou a mula pela brida e perguntou, Vamos, o marido respondeu, Vamos, mas devagar, não quero que se me caia. A lua, cheia, brilhava. Em
.algum lugar, adiante, encontrava-se a fronteira, essa linha que só
|nos mapas é visível. Como iremos saber que chegámos, perguntou i mulher, O pai o saberá. Ela compreendeu e não fez mais pergun-jtas. Continuaram a andar, ainda cem metros, ainda dez passos, e ie súbito o homem disse, Chegámos, Acabou, Sim. Atrás deles [ima voz repetiu, Acabou. A mãe do menino amparava pela última vez o filho morto no regaço do seu braço esquerdo, a mão direita segurava ao ombro a pá e a enxada de que os outros se tinham esquecido. Andemos um pouco mais, até àquele freixo, disse o cunhado. Ao longe, numa encosta, distinguiam-se as luzes de uma povoação. Pelo pisar da mula percebia-se que a terra se tornara macia, deveria ser fácil de cavar. Este sítio parece-me bom, disse por fim o homem, a árvore servir-nos-á de sinal para quando vier¬mos trazer-lhes umas flores. A mãe do menino deixou cair a enxa¬da e a pá e, suavemente, deitou o filho no chão. Depois, as duas irmãs, com mil cautelas para que não resvalasse, receberam o corpo do pai e, sem esperarem a ajuda do homem que já descia da mula, foram colocá-lo ao lado do neto. A mãe do menino soluçava, repe¬tia monotonamente, Meu filho, meu pai, e a irmã veio e abraçou-se a ela, chorando também e dizendo, Foi melhor assim, foi melhor assim, a vida destes infelizes já não era vida. Ajoelharam-se ambas no chão a prantear os mortos que tinham vindo a enganar a morte. O homem já manejava a enxada, cavava, retirava com a pá a terra
solta, e logo voltava a cavar. Para baixo a terra era mais dura, mais compacta, algo pedregosa, só ao cabo de meia hora de trabalho contínuo a cova ganhou profundidade suficiente. Não havia cai¬xão nem mortalha, os corpos descansariam sobre a terra estreme, somente com as roupas que traziam postas. Unindo as forças, o homem e as duas mulheres, ele dentro da cova, elas fora, uma de cada lado, fizeram descer devagar o corpo do velho, elas susten¬tando-o pêlos braços abertos em cruz, ele amparando-o até que tocou o fundo. As mulheres não paravam de chorar, o homem tinha os olhos secos, mas todo ele tremia, como se estivesse atacado de sezões. Ainda faltava o pior. Entre lágrimas e gemidos, o menino foi descido, arrumado ao lado do avô, mas ali não estava bem, um vultozinho pequeno, insignificante, uma vida sem importância, deixado à parte como se não pertencesse à família. Então o homem curvou-se, tomou a criança do chão, deitou-a de bruços sobre o peito do avô, depois os braços deste foram cruzados sobre o corpi¬nho minúsculo, agora sim, já estão acomodados, preparados para o seu descanso, podemos começar a lançar-lhes a terra para cima, com jeito, pouco a pouco, para que ainda possam olhar-nos por algum tempo mais, para que possam despedir-se de nós, ouçamos o que estão dizendo, adeus minhas filhas, adeus meu genro, adeus meus tios, adeus minha mãe. Quando a cova ficou cheia, o homem calcou e alisou a terra para que não se percebesse, se alguém pas¬sasse por ali, que havia gente enterrada. Colocou uma pedra à cabeceira e outra mais pequena aos pés, a seguir espalhou sobre a cova as ervas que havia cortado antes com a enxada, outras plan¬tas, vivas, em poucos dias virão tomar o lugar destas que, murchas, mortas, ressequidas, entrarão no ciclo alimentar da mesma terra de que haviam brotado. O homem mediu a passos largos a distância entre a árvore e a cova, doze foram, depois pôs ao ombro a pá e a enxada, Vamos, disse. A lua desaparecera, o céu estava outra vez coberto. Começou a chover quando acabavam de atrelar a mula à carroça.

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