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quinta-feira, 4 de outubro de 2007

E-mails antigos

Nos idos de 2005 troquei e-mails com a pessoa (Peter Sowmy) que considero um dos maiores entendidos de Bíblia com que já conversei ou quem sabe até que vá conversar. Por ser de um conteúdo muito interessante apresento a baixo o email.


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Caro Francisco,

Tentarei responder a tuas indagações conforme meu conhecimento.

S. Lucas era médico na corte do governador de Antioquia, ao tempo da morte e ressureição de N.S. Jeus Cristo. O Evangelho dele, é dirigido ao governador e por isso, ele o faz de forma elegante e lógica, redigido na lingua clássica daquela época dos ocidentais, o grego. Por isso, durante séculos, a Igreja Romana teve preferência pelo Evangelho de S. Lucas.

Segundo a tradição da Igreja Romana, assim como da Igreja de Antioquia (essa sim, uma Igreja Oriental), ele ouvira os ensinamentos da mãe de Jesus, a Virgem Maria. Depois, reproduziu-os ao governador, já num estilo aceitável aos ouvidos ocidentais.

S. Mateus, segundo os ensinamentos da Igreja, era um dos primeiros pregadores do início do cristianismo. De qualquer forma, tanto ele quanto S. Pedro e todos os discípulos, falavam o idioma arameu, no qual Jesus ensinava. Nós, orientais, já sabíamos de há muito o que o Ocidente aceitou somente no século XVIII, que o evangelho de S. Mateus fora escrito em aramaico.

Quanto às palavras finais "...por que teu é o reino, e o poder e a glória, para sempre. Amém.", somente a partir de meados do século passado (Concílio Ecumenico) é que a Igreja Romana as tirou, adotando definitvamente a forma como S.Lucas apresenta. A prova disso é que a Igreja Anglicana, dissidencia da Igreja Romana, desde o século XV e até hoje termina o "Pai Nosso" com: "...for thine is the kingdom and the power and the glory for ever and ever, amen."

Nas Igrejas Orientais, tanto a Ortodoxa de Antioquia quanto a Assíria Oriental (segue os ensinamentos de Nestor), bem como as suas dissidencias que se uniram à Igreja Romana, ou seja, a Igreja Maronita e a Siríaca Católica, bem como a Igreja Caldaica, também rezam segundo a tradição Ortodoxa de Antioquia e com isso quero dizer, utilizam o "Pai Nosso" conforme apresentado em aramaico por S. Mateus. Com isso, chego à proxima questão.

Sim, nós temos uma versão especial,chamada Pexita (os ingleses costumam escrever Peshita). Ela é uma versão não só do Novo Testamento, porém uma versão completa da Biblia, ou seja, tanto o Velho quanto o Novo Testamento. A cópia mais antiga da versão Pexita (=simples em Aramaico), preservada até hoje data do V século d.C.e é totalmente escrita em aramaico. No século XIX, um expedição inglesa achou em um convento no Egito uma versão em aramaico do Novo Testamento e é conhecida como Curetoniana. Essa cópia é anterior à cópia da Pexita em 150 anos. O único problema é que, aparentemente, há muito de estilo grego nessa versão Curetoniana, o que faz crer que ela é tradução do grego; enquanto a Pexita traz o estilo arameu com as influências gregas que eram populares naquela época.

Por outro lado, a Igreja Romana adota duas versões da Bíblia, quanto ao Velho Testamento, ela adota a tradução Septuagint (=70) feita do aramaico ao grego em Alexandria por volta de 300 a.C. e a composição de S. Jeronimo, conhecida como Vulgata (popular ou simples). Também no Novo Testamento, S. Jeronimo afirma ter se baseado na versão grega e armaica.

Não conheço qualquer versão da Pexita com pronúncia figurada e, sinceramente, presumo que esse trabalho nunca será efetuado. Seria excessivamente demorado. Sem querer dar falsa ilusão, acho mais rápido aprender o aramaico ou qualquer outra língua do que tentar esse trabalho proposto.

Não vou prometer, vou tentar achar um tempo para gravar o Pai Nosso em aramaico.
Pux baxlomo (fique em paz)
Peter Sowmy

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Peter,

Obrigado pela atenção, e principalmente pelas respostas.... Bem, ainda sobre a diferença nas orações, eu encotrei uma referencia (desculpe mas não me lembro exatamente onde) que diz: "Uma oração rabínica jamais termina com o termo mal e, por isso, a oração de Jesus causou um certo mal-estar. Mateus arruma o problema e coloca a doxologia final (pois teu é o reino...)." Você tem alguma referencia quanto a
isso?

Existe como eu adquirir a Pexita ? Assim quem sabe me estimula a aprender o aramaico :)

Quando você explicou um pouco sobre a oração no domingo, e disse que tinha que fazer algumas pequenas correções de pronuncia no texto (como colocar um h acho que no màlkutókh, tem como você fazer essa correção pra mim ?)

(Pai nosso em armaico)
Abún edbáchmáio / netkadách echmókh / títhe malkutókh / nehué sébionókh aikáno edbachmáio óf baró / háb lán láhmo edsúnkónan iaumóno / uáchbúk lán haubáin uáhtoháin / aikáno dóf ehnán echbakén elhaiobáin / ló talán elnessiúno / eló fassón mén bícho / metúl dilókh hí malkútho / háilo / utéchbúhto / elolám olmín / Amín.

vc comentou também que a expressão "uáhtoháin" foi acrescentada à oração original, para especificar que são pecados morais (embora não estava na original) é isso ?

outra questão é sobre o haubáin que tem o sentido de dívidas (sendo que haubáin uáhtoháin dá o sentido de ofensas) se eu entedi bem é isso... então qual a diferença entre o haubáin e o elhaiobáin ?

vc também comentou sobre uns sites sobre aramaico, poderia me passar ?

Muito obrigado,
Francisco

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Caro Francisco,

Vamos por partes.

1) Não vou afirmar categoricamente, porém, não creio que fosse S.Mateus quem corrigisse a oração do Pai Nosso. Creio que ele a reproduziu fielmente e isso, independentemente do penamento rabínico. A ruptura entre Jesus Cristo e a escola rabínica já ocorrera bem antes de Mateus seguir os ensinamentos de Jesus. Aliás, há indícios claros de que o próprio povo judeu já estava descontente com os rabinos. Se tomarmos o relato do Novo Testamento, veremos que Jesus, numa das três últimas idas
suas ao templo de Jerusalém, expulsa os comerciantes do templo. Ele refletia aquilo que o povo queria mas não tinha coragem de fazer.

Pergunto eu, com anuência de quem esses comerciantes vendiam suas mercadorias no templo? Dos romanos? Não. A forma de conduzir a relação entre colonia e Roma era clara: pague-se o tributo a Cesar e tudo será mantido como se fosse um governo autônomo. A única instituição que poderia autorizar o comércio dentro do templo era a classe rabínica.

Além disso, S. Paulo nos ensina que Jesus não era sacerdote da linhagem de Araão porém o era da linhagem de Melquizedeque. Sem entrar em discussão teológica de consubstanciação de pão e vinho, há por tras dessa afirmação um fato antropológico importante. Na origem dos tempos da consciencia religiosa da humanidade, o ser humano oferecia animais como sacrifício à divindade pois, esse mesmo ser humano era caçador.

Somente numa fase bem posterior é que as oferendas passaram a ser de origem vegetal. Quem oferece pão e vinho, só pode ser agricultor. O caçador tem uma índole mais violenta que o agricultor. O próprio ofício requer essa peculiaridade. Ora, se compararmos a oração de Jesus com as de Davi, por exemplo, veremos que Jesus não nos faz pedirmos a Deus a destruição de nossos inimigos mas tão somente que nos livre deles. No caso de Davi (ou de quem redigiu os Salmos), veremos que em alta percentagem, pede ele a concorrencia de Deus para a destruição de seus inimigos.

Essa postura antagônica entre Jesus e a escola rabínica, faz-me crer que não podria haver uma participação do pensamento rabínico "no acerto" do Pai Nosso.

2)A Pexita pode ser adquirida nos livreiros internacionais via Internet. Fiz uma rápida pesquisa e creio que o lugar mais barato seja:
http://www.e-web-presence.com/aramaicbooks/default.php?cPath=26

3)Lembra que eu disse que era somente para questão de pronúncia para quem soubesse inglês, daí "malkuthokh".

4)Sim, uaHtohain foi acrescentado no sentido de pecado pois Haube tem como significado básico "dívidas". Observe porém que não aparece na Pexita, é uma particularidade das Igrejas Siríacas (Ortodóxa, Católica, Caldaica, Maronita e do Oriente).

5)Haubain é nossas dívidas (na linguagem eclesiástica, significa ofensa moral) e elHawbain é a partícula "L" (lomad / lamed) antecedendo Hawbain por razões sintático-estilísticas. Assim, podemos dizer: "xvuq lan Hawbain" ou "xvuq lHaubain". Neste último caso temos a forma direta e simples de dizer "perdoa as nossas ofensas" e no primeiro, vertendo ao português, teremos "perdoa a nós as nossas ofensas". Veja o uso de "lan" (= a nós) como um reforço no sentido.

Abraços
Peter

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